Sem Forma e Vazia – Quantos Anos Tem a Terra?

Como se sabe, a ciência tem uma concepção de que o universo teria gerado a si mesmo e evoluído por meio das leis da física.

E essa autotransformação do cosmos teria acontecido com o passar de bilhões de anos, algo que não conseguimos imaginar como seria. A própria vida, segundo essa teoria científica, teria surgido da interação dos elementos que levou igualmente milhões e milhões de anos.

Dessa forma, podemos afirmar que o tempo possui uma participação importantíssima na equalização da explicação do surgimento de todas as coisas e da vida como a conhecemos. E esse fator vai inevitavelmente nos levar a uma pergunta que tem sido indagada já por várias gerações passadas e mesmo nos dias atuais, “Quantos anos tem a terra”?

Nesse sentido, há um verso no livro de Bereshit, Gênesis, que, se bem compreendido, pode nos dar uma boa ilustração e aumentar o nosso entendimento no que diz respeito à forma como o nosso mundo foi criado, e consequentemente o tempo envolvido nos atos da Criação.

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo;
Gênesis 1:2

Quantos Anos Tem o Universo?

O texto da Bíblia Hebraica (mais conhecida como Antigo Testamento), que acabamos de citar logo acima está criticamente relacionado com a idade da Terra e de todo o cosmos. Veja, meu caro amigo leitor, que neste estudo bíblico não tenho a intenção de me referir ao tempo em que o universo existe, de um ponto de vista em oposição ao que a Torá (também chamada de Pentateuco), afirma.

É verdade que em alguns pontos, a ciência e a Bíblia podem concordar, sem tirar a relevância de uma ou de outra. Por isso, eu te convido a vir conosco em mais um estudo da Parashát Bereshit. Vamos juntos descobrir os significados hebraicos originais do livro do Gênesis!

Vem comigo!

Quando Começa o Primeiro Dia da Criação?

Quando contamos, biblicamente, desde o início da Criação do Mundo, encontramos o número de 5776 anos. Entretanto, buscando no texto do Sefer Bereshit (Livro do Gênesis), perek (capítulo) 1, qual pasuk (verso) descreve melhor o “princípio”? Onde poderíamos começar a contar o tempo da existência do universo?

Seria no verso 1:1? Ou no verso 1:5, quando a Torá finaliza do dia primeiro? Ou ainda, quem sabe, o princípio da contagem do tempo seria no verso 1:6, com a criação do sol?

O conceito de “dia”, na Bíblia, é uma unidade de tempo que necessita de alguma referência. Um dia bíblico é expressamente definido pela variação na quantidade de luz disponível. E vemos que a luz é criada no pasuk (verso) 1:3 de Gênesis.

Logo em seguida, a luz e as trevas são separadas, fazendo aparecer o primeiro ciclo “dia e noite”, o que automaticamente inaugura o dia primeiro.

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
Gênesis 1:3-5

E se o dia primeiro é estabelecido por meio da transição entre a Luz e as Trevastarde e manhã – então esse dia primeiro se inicia no momento em que a Luz se torna operativa, o que nos leva ao verso 1:3 de Gênesis!

É interessante notar que os Céus e a Terra foram criados antes da criação da Luz, portanto, antes do dia primeiro começar, antes do início da contagem do tempo como o conhecemos.

Isso nos faz presumir que o primeiro ato da Criação ocorreu em um passado indefinido, fora da contagem dos seis dias da Criação do Mundo. Por isso, tentar medir a idade do universo seria algo impossível.

Pode ter passado milhões, bilhões de anos antes da criação da Luz! Não estou tentando confraternizar com a ciência aqui. Apenas reconhecer essa possibilidade de ter passado este tempo indefinido. Quem pode saber?

Chegando a essa conclusão, com esses detalhes em mente, podemos vir a nos perguntar, como o entendimento desse fato influenciaria o entendimento do restante da história da Criação, e da criação da vida, o bem mais valioso de todos?

Por isso, repetimos aqui o pasuk do Gênesis 1:2 que vai nos dar mais clareza sobre o surgimento da vida, se investigarmos bem os reais significados de suas palavras no hebraico bíblico:

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
Gênesis 1:2

Sem Forma e Vazia?

Voltando ao Gênesis 1:1, fica bem claro que se trata da criação dos céus e da terra. Porém o verso seguinte, 1:2, relata como, em que condições estava a Terra imediatamente após a sua criação.

Este verso não é tão fácil de entender, principalmente por ter sido traduzido de formas tão variadas, que se torna necessário rever cada uma de suas palavras em hebraico. Vamos então fazer uma tradução mais fiel ao original deste texto. Acompanhe conosco:

a-terra tinha forma

A Terra Não Era Sem Forma no Princípio.

VehaAretz –  “Mas a Terra”

O rabino Morris J. Raphall, Ph.D. em línguas semíticas, constatou em um dos seus comentários sobre a Torá (o Pentateuco), que o início do verso dois, “E a terra era sem forma e vazia” Gênesis 1:2, deveria ser lido como, “Mas a terra era sem…”.

E ele explica que isso se dá, porque há um sinal de acentuação (ta’amim rabia), tônico, logo acima da palavra וְהָאָ֗רֶץ , “vehaAretz“, fazendo que a sua primeira letra, a letra וְ vav, que geralmente é uma conjunção aditiva, “e“, (‘e a terra‘ – está adicionando informação), se transforme em uma conjunção adversativa “mas, porém, entretanto” – expressando uma ideia de contraste.

VehaAretz Hayeta – Mas A Terra Era…

Em hebraico, o passado simples, como o verbo “bara“, “criou”, é expressado pela forma verbal akhal. E algumas formas do passado perfeito, “hayeta” (geralmente traduzido como “era“), são usadas para dar a conotação de um evento que aconteceu antes do sentido principal da história.

Assim, “mas a terra era…“, descreve o estado do nosso planeta e a sua incapacidade de sustentar a vida no primeiro momento em que foi criado.

Hum… mas tem muita gramática aqui… porque isso me interessaria? Bom, as duas próximas palavras “tohu vavohu“,  a partir da tradução correta vão nos dar uma nova visão sobre a idade da terra, e uma melhor compreensão da origem da vida.

Tohu Vavohu – Vazia e… Vazia?

A primeira descrição da Torá sobre a terra é feita por meio das palavras “tohu vavohu“. Mas o que significa “tohu vavohu”? Essas duas palavras hebraicas tem deixado os tradutores perplexos por séculos.

Uma grande variedade de traduções tem sido feitas, mas a maioria delas é na verdade uma interpretação, uma visão exegético-teológica, mais do que a tradução fiel dessas palavras.

A tradução mais conhecida vem da Septuaginta (a versão grega do Pentateuco), que embora tivesse sido composta por 70 ou 72 rabinos no terceiro século A.C., eles mesmos admitiram (há registro) que foram forçados a fazer uma tradução “diplomática”, que não ofendesse a sensibilidade do monarca grego da época, o Ptolomeu Talmai.

Por isso, na maioria das Bíblias atualmente vem com as palavras “sem forma e vazia“, para “tohu vavohu“, o que dá uma ideia de “caos”, “desordem”, “confusão”, entre outras. Essa tradução dá uma noção de que a terra estava em uma espécie de caos primitivo.

E “por pura coincidência”, haha, esse era o entendimento que os Gregos tinham do início do universo. O Caos era, na cosmologia Grega antiga, o vazio primitivo que o universo se encontrava.

E parece (apenas parece), que alguns tradutores aproveitaram para inserir um pensamento Grego (o pensamento helenista era bastante idólatra), o conceito de um Caos Primitivo, dentro das Escrituras Sagradas! Imagine isso!

Além disso, esse Caos fabricado por tradutores serviu para ligar o livro de Bereshit, o livro do Gênesis, aos contos míticos da Criação dos Babilônios, presentes na Enuma Elish, por exemplo.

Só que esse caos primitivo vai contra os princípios bíblicos. Um planeta caótico serve muito mais como um cenário perfeito para a filosofia Platônica, onde Deus teria criado um universo imperfeito, caótico, “sem forma“, assim fazendo um paralelismo com o modo como os Gregos viam o início da matéria, um verdadeiro “pandemônio“.

o caos é parte da mitologia grega

O Caos Primitivo é Parte da Mitologia Grega.

A Torá, ao contrário, descreve um planeta criado em plena ordem, porém ainda não preparado para receber a vida.

É por isso que o Targum onkelos, uma tradução interpretada da Tanach (a Bíblia Hebraica), define “tohu vavohu” como “tzadya vereqanya“, “despovoada e vazia“. A palavra Aramaica “tsada” ou “tsadi” significa “despovoada“. A segunda palavra “reqanya” significa “vazia“.

Ambas são utilizadas em conjunto, uma espécie de wordplay que reforça o sentido de que não havia vida na terra até aquele ponto na história – sem vida animal, vegetal, nem microbiológica.

Neste ponto do nosso estudo, certamente você deve estar se perguntando: E porque Deus criou o mundo sem vida? Porque Ele não criou um planeta já cheio de vida, desde o seu início?

Deus em sua suprema sabedoria e pré-ciência, sabia que o homem tentaria impor a teoria de “um universo criado sem Deus“.

Por isso a Torá está querendo nos ensinar que a Vida, o bem mais precioso do mundo, não foi “naturalmente” gerada pelos elementos criados. Não foi a “mãe natureza” que por meio de milhões, bilhões de anos que gerou a vida.

Veja, como dissemos, a experiência da passagem de bilhões de anos já havia ocorrido na terra, pois a terra foi criada em um momento que está fora da contagem dos dias da criação.

Realmente bilhões de anos podem ter se passado. E no que isso resultou? Em nada. É por isso que o verso 1:2 de Gênesis insiste em nos revelar, que mesmo após um tempo indefinido a terra continuava “despovoada e vazia“, sem vida, nem mesmo uma simples bactéria!

Porque a Vida precisa de um ser igualmente Vivo e Poderoso para gerá-la. E foi gerada pela suprema vontade do Criador.

A correta tradução do Gênesis nos traz essa mensagem, de que é de Deus, e somente dele que provém a Vida. Ele é o dono da vida e mais ninguém.

Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida.
1 João 5:12

Sobre o autor | Website

ישראל סילבה Casado com Ana Paula Curty, papai da Sarah Curty, formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, e Contexto Judaico do Novo Testamento, é Especialista em Estudos da Bíblia Hebraica, certificado pelo Israel Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém; Apocalipsismo Judaico, pela Keets alMayim.

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  • Jâmyson

    Shalom.
    Tov meod !
    Já ouvi de um judeu messiânico que a terra ficou sem forma e vazia porque Lúcifer foi lançado do céu sobre a terra, destruindo assim os dinossauros e deixando um verdadeiro caos. Bevacacha, me tira essa dúvida. Desde já, obrigado.

    • Shalom! Já ouvi. Essa é a teologia do lapso, ou do intervalo, que tenta se adaptar à teoria da evolução. Segundo o texto do Sefer Bereshit, a terra não estava sem forma. Sem forma é uma tradução equivocada, da septuaginta. Não tinha caos, nem desordem. A terra só não tinha naquele momento preparo para sustentar a vida.

      להתראות lehitra’ot!

    • Ronaldo Piloto

      E Judeu Messiânico lá é judeu? Na verdade, os Judeus Messiânicos não são judeus e nem cristãos, haha, trata-se apenas de membros de uma seita.

  • Estevão Marinho

    Excelente artigo! Muito simples e instrutivo, parabéns!