As Raízes Hebraicas do Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus (מַתִּתְיָהוּ Matityahu em Hebraico), um dos quatro Evangelhos sinóticos do Novo Testamento, é citado em muitas obras dos chamados “Pais da Igreja“, que não hesitaram em mostrar que certamente Mateus teve como fonte um documento maior, chamado de Evangelho segundo os Hebreus.

Jerônimo, um dos “Pais da Igreja”, escreveu sobre o Evangelho segundo os Hebreus:

No Evangelho que os Nazarenos e os Ebionitas usam, o qual eu tenho traduzido do Hebraico para o Grego e que é chamado por muitas pessoas de Mateus Original… (Jerônimo; Sobre Mateus 12:13).

Jerônimo não é o único “Pai da Igreja” que conecta o Evangelho dos Hebreus com o Livro de Mateus. Ireneu dizia que os Ebionitas liam somente Mateus (Heresias 1:26:2). Eusébio afirmava que eles “usavam somente o Evangelho dos Hebreus” (História Eclesiástica 3:27:4). Epifânio diz que o Evangelho “Ebionita” “…é chamado Evangelho segundo Mateus ou Evangelho segundo os Hebreus” (Panarion 30:16:4-5).

Estas citações levaram a Hugh Schonfield (Teólogo Britânico, especializado em Novo Testamento e Traduções Bíblicas) à seguinte conclusão:

Na minha opinião, o Evangelho canônico [de Mateus] é um uma edição resumida de uma Obra Maior, em que há fragmentos que ainda sobrevivem…, e que eu acredito que este Proto-Evangelho foi escrito em Hebraico, não em Aramaico,…

Qualquer que tenha sido o seu título original, nós temos alusões a ele com os nomes de “o Evangelho”, “o Evangelho do Senhor”, “o Evangelho dos Doze, ou dos Apóstolos”, “o Evangelho dos Hebreus”, e “Mateus Hebraico”. – Hugh J. Schonfield – (An Old Hebrew Text of St. Matthew’s Gospel; 1927 p. viii)

o evangelho de mateus O Evangelho de Mateus Foi Escrito em Hebraico.

O Título do Evangelho de Mateus

Muitas das cópias mais antigas de Mateus, não tem título. A cópia chamada de “DuTillet Mateus Hebraico” (manuscrito de Mateus na língua Hebraica encontrado em Roma em 1553) tem a palavra אלה – “estas” – escritas com letras bem grandes no topo do manuscrito.

E isto, juntamente com outras evidências textuais, vai nos sugerir que o título original de Mateus poderia ter sido אלה תולדות ישו “Estas são as Gerações de Yeshua (Jesus), que corresponde à primeira frase do livro em Hebraico.

O texto da cópia de Sebastian Munster, do Evangelho de Mateus em Hebraico, foi publicada primeiramente em 1537 e depois em 1557, com o título de תורת המשיח Toraht haMashiach, “As Torás do Messias”, conforme Gal. 6:2 em seu original Hebraico:

וּשְׂאוּ אִישׁ אֶת נֵטֶל רֵעֵהוּ, כִּי כָּכָה תְּמַלְּאוּ אֶת תּוֹרַת הַמָּשִׁיחַ

Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei (Torah em Hebraico) de Cristo
Gálatas 6:2

Porém não está muto claro se este título era mesmo do manuscrito ou se foi Munster quem o criou. O título, “As Torás do Messias”, pode também ser uma referência à peculiar divisão presente no livro de Mateus. Ocorre que Mateus apresenta cinco divisões contendo, cada uma, um sermão de Jesus, que parecem querer fazer um paralelismo com os Cinco Livros da Torá (ver Mateus 5-7; 10; 13; 18; 24-25). Nas versões em Aramaico, o livro é chamado de Evangelho de Mateus.

O Autor do Evangelho de Mateus

Tanto a Tradição, quanto a história dão autoria deste livro a Mateus, que foi um dos doze discípulos de Jesus. Ele era um coletor de impostos (Publicano, ver Mateus 9:9), e era chamado “Levi” nos livros de Lucas e Marcos. Mateus deixou o ofício de Publicano para atender o chamado de Yeshua (Jesus) para segui-lo. O nome “Levi”, pode significar que Mateus era um Levita.

A Língua Original de Mateus

Muitos “Pais da Igreja” registram que Mateus foi originalmente escrito em Hebraico, como veremos logo abaixo:

Papias (150-170 D.C.)

Mateus escreveu no dialeto Hebraico, e as traduziu conforme a sua habilidade.

Ireneu (170 D.C.)

Mateus também lançou um Evangelho escrito, entre os Hebreus, e em seu próprio dialeto.

Orígenes (210 D.C.)

O primeiro [Evangelho] foi escrito segundo Mateus, o mesmo que era um coletor de impostos, mas depois se tornou um Emissário de Yeshua (Jesus) o Messias, quem tendo publicado [o seu Evangelho] para os crentes Judeus, o escreveu em Hebraico.

Eusébio (315 D.C.)

Mateus também, tendo primeiro proclamado o Evangelho em Hebraico…

Panteno… penetrou tão longe quanto a Índia, onde é relatado que ele encontrou o Evangelho segundo Mateus , que havia sido dado por alguém que tinha conhecimento do Messias, para quem Bartolomeu, um dos Emissários, como é dito, tinha proclamado, e deixou com eles os escritos de Mateus na sua língua Hebraica.

Epifânio (370 D.C.)

Eles [os Nazarenos] tem o Evangelho segundo Mateus bem completo em Hebraico, porque este Evangelho está certamente preservado entre eles, como foi primeiramente escrito, em letras Hebraicas.

Jerônimo (382 D.C.)

Mateus, quem é também Levi, e de coletor de impostos veio a ser um Emissário, primeiro de todos os evangelistas, compôs um Evangelho do Messias na Judeia na língua e letras Hebraicas, para o benefício daqueles da circuncisão que tinham crido. Quem traduziu-o para o Grego não é suficientemente conhecido.

Ainda mais, o Hebraico em si mesmo é preservado até este dia na biblioteca em Casareia, a qual Pamphilus tão diligentemente o coletou. Eu também fui autorizado pelos Nazarenos, que usam este volume na cidade Síria de Borea, a copiá-lo. Em que é para ser notado que, qualquer evangelistas… faz uso do testemunho das Escrituras Antigas, ele não segue a autoridade dos setenta tradutores [a Septuaginta em Grego], mas daquele em Hebraico.

Porque Quatro Evangelhos?

Há uma palavra-chave em Hebraico e Aramaico que tem todo o potencial para explicar a simbologia que os quatro Evangelhos trazem. A palavra Hebraica/Aramaica PARDES, que é escrita nas duas línguas, inicialmente sem as vogais = PRDS. O Termo PaRDeS significa um parque ou jardim, especialmente ao Jardim do Éden.

A palavra PRDS ou PaRDeS é um acrônimo, também conhecido como “notarikon”, para:

  1. [P]ashat (Heb. “simples”) O sentido simples do texto, que está na sua superfície, ou no nível literal de entendimento;
  2. [R]emez (Heb. “pista”) É o sentido implícito do texto, que nos dá uma “pista” para seguirmos e encontrarmos o seu significado;
  3. [D]rash (Heb. “busca”) É o sentido alegórico, tipológico, o nível homilético (pode haver uso de histórias semelhantes a parábolas);
  4. [S]od (Heb. “oculto”) É o nível oculto, secreto ou místico do texto. Envolve declarações que não fazem sentido, se levadas na sua literalidade, ex.”Eu sou a luz do mundo”.

Estes são os quatro níveis de interpretação dos textos Hebraicos. Os quatro Evangelhos, um a um, representam os quatro níveis de entendimento da vida de Yeshua (Jesus), e também revelam aspectos diferentes da vida e da obra do Messias.

Cada Evangelho também corresponde a uma das faces dos seres viventes em Ezequiel 1:

E do meio dela saía a semelhança de quatro seres viventes. E esta era a sua aparência: tinham a semelhança de homem.
E cada um tinha quatro rostos, como também cada um deles quatro asas.
Ezequiel 1:5,6

Marcos é o Evangelho da Peshat

Marcos, quando estava na Babilônia com Pedro, escreveu o seu Evangelho de forma simples e direta, concisa, tomando o nível da Peshat da vida de Yeshua (Jesus), para apresentá-la aos Goyim (os Gentios).

A vossa co-eleita em babilônia vos saúda, e meu filho Marcos.
1 Pedro 5:13

Ele escreveu o seu Evangelho em Aramaico Siríaco, pois os seus leitores na Babilônia eram Sírios e Assírios. Marcos usou das narrativas dos Evangelhos de Mateus e Lucas, e simplificou o texto para criar uma versão mais simples, que os Gentios pudessem entender.

Marcos apresenta o Messias “servo”, aquele que foi profetizado pelo Profeta יְשַׁעְיָ֫הוּ Yeshayáhu, Isaías:

Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime.
Isaías 52:13

Ele é o “Servo” o RENOVO de Zacarias 3:8 que é simbolizado pelo “rosto de boi” em Ezequiel 1:

E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro. Ezequiel 1:10

O boi é a figura clássica do “servo”, um animal de carga. E é por isso que Marcos não inicia o seu Evangelho com o nascimento de Jesus, como Mateus e Lucas fizeram. Isso porque diferente do nascimento de um Rei, o nascimento de um Servo não é importante, na cultura da época. Tudo o que importa na vida de um servo é o seu trabalho de servir, e que no caso de Jesus, se inicia com o seu batismo por Yochanan (João Batista).

Lucas é o Evangelho do Remez

Lucas escreveu com muitos detalhes, para o Sumo Sacerdote Teófilo, que era Saduceu. Os Saduceus eram muito detalhistas. Lucas apresenta Yeshua (Jesus), como um Sumo Sacerdote, que é simbolizado na visão de Ezequiel 1 pelo “rosto de homem”.

Mateus é o Evangelho da D’rash

Mateus conta a vida de Jesus como um Midrash  (uma história que busca uma verdade profunda, uma lição moral) aos fariseus, e como uma continuação de diversas passagens do Antigo Testamento (a Bíblia Hebraica). Por exemplo, Mt. 2: 13-15  representa uma compreensão alegórica de Oséias 11: 1).

E sendo um Evangelho que opera no nível da d’rash,  Mateus também inclui uma série de parábolas que apresenta o Jesus como o Rei Messias, a raiz de Davi, e que a Sua realeza é simbolizada pelo “rosto do leão” em Ezequiel 1.

João é o Evangelho do Nível Sod

João escreve o seu Evangelho para o grupo dos Essênios, e tem a preocupação em citar tópicos que transcendem o mundo físico, em suas interpretações, tais como: Luz, Vida, Verdade, O Caminho e A Palavra.

A Mensagem de Mateus

Mateus é parte de uma Midrash, que toma 128 passagens do Antigo Testamento (a Bíblia Hebraica), em conjunto para provar em sua narrativa que Yeshua (Jesus) é o Messias dos Judeus. E ele se utiliza de formas complexas de interpretações da D’rash em suas passagens.

Mateus também enfatiza as Midrashim (as Parábolas de Jesus) mais do que qualquer outro autor dos Evangelhos.

Sobre o autor | Website

ישראל סילבה Casado com Ana Paula Curty, papai da Sarah Curty, formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, e Contexto Judaico do Novo Testamento, é Especialista em Estudos da Bíblia Hebraica, certificado pelo Israel Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém; Apocalipsismo Judaico, pela Keets alMayim.

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